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A saudade que vira obra: como artistas brasileiros transformam Tóquio e Buenos Aires em combustível criativo

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A saudade que vira obra: como artistas brasileiros transformam Tóquio e Buenos Aires em combustível criativo

Existe um paradoxo curioso que qualquer artista brasileiro que já viveu fora do Brasil conhece bem: quanto mais longe de casa, mais brasileiro você se torna. A distância afina os sentidos, aguça o olhar sobre o que você sempre deu como certo — e, de repente, o sotaque do nordeste que você mal percebia vira melodia, a paleta das fachadas cariocas vira referência visual, o ritmo do samba vira contraponto para algo completamente novo.

Tóquio e Buenos Aires ocupam posições únicas nesse mapa afetivo. São cidades que não pedem para ser entendidas rapidamente. Elas resistem, provocam e, para quem tem sensibilidade artística, acabam funcionando como laboratórios vivos — cada uma à sua maneira.

O que Tóquio oferece que nenhuma aula ensina

Para a designer gráfica paulistana Renata Mori, que passou 14 meses em Tóquio trabalhando remotamente para um estúdio brasileiro, a cidade foi uma aula de contenção. "No Brasil, eu tendia ao excesso — mais cor, mais elemento, mais textura. Em Tóquio, aprendi que o espaço vazio também é uma escolha criativa. O ma japonês — essa ideia de pausa, de intervalo — entrou no meu trabalho de um jeito que eu não consigo mais reverter."

O bairro de Shimokitazawa, no sudoeste de Tóquio, é um dos pontos de encontro mais conhecidos entre artistas estrangeiros que vivem na cidade. Com suas lojas de discos independentes, teatros pequenos e cafés que dobram como galerias, o bairro funciona como uma incubadora informal. Há comunidades de artistas internacionais que se organizam em grupos no Discord e se encontram presencialmente aos fins de semana — e brasileiros são presença constante.

O fotógrafo cearense Fábio Luz descobriu Shimokitazawa quase por acidente, seguindo uma recomendação de um conhecido. Ficou. "Eu fui para Tóquio com a câmera calibrada para retratos urbanos bem iluminados, aquele tipo de foto que funciona bem no Instagram. Mas a cidade me forçou a desacelerar. As pessoas não querem ser fotografadas, o espaço público tem outra lógica. Então comecei a fotografar o que estava nas bordas — fiações, vending machines às três da manhã, plantas crescendo entre o concreto. Virou uma série inteira."

Buenos Aires e a generosidade do caos

Se Tóquio ensina pelo silêncio, Buenos Aires ensina pelo barulho. A capital argentina é uma cidade que fala — nas suas livrarias de bairro, nas mesas de bar que viram debates filosóficos, nos murais que cobrem paredes inteiras de Palermo e Villa Crespo. Para artistas brasileiros, ela funciona como um espelho levemente distorcido: próxima o suficiente para parecer familiar, diferente o suficiente para provocar.

O músico mineiro André Falcão passou um ano em Buenos Aires após uma turnê que terminou sem planos claros de volta. Ele ficou. "A cena musical portenha tem uma relação com o tempo que me desacomodou completamente. Aqui, uma jam session pode começar às 23h e terminar às 6h da manhã, e todo mundo acha isso completamente normal. Isso mudou minha relação com a criação — parei de ter pressa."

O bairro de San Telmo, com sua mistura de mercado de pulgas, bares de tango e estúdios de artistas, é um dos epicentros dessa energia. Mas quem conhece Buenos Aires de verdade aponta também para Chacarita, um bairro que nos últimos anos se tornou o novo polo criativo da cidade, com coletivos de arte, feiras independentes e estúdios compartilhados onde brasileiros, argentinos e artistas de outros países trocam referências sem formalidade.

A saudade como ferramenta, não como peso

O que une as histórias de Renata, Fábio e André — e de tantos outros artistas brasileiros espalhados entre essas duas cidades — é uma ressignificação da saudade. Ela deixa de ser ausência para virar presença ativa no trabalho.

A ilustradora carioca Camila Torres, que divide seu tempo entre os dois países há três anos, descreve assim: "Quando estou em Tóquio, eu desenho o Brasil que sinto falta — as cores, o calor, a bagunça afetiva. Quando estou em Buenos Aires, eu desenho o Japão que me marcou — a ordem, a delicadeza, o que aprendi sobre silêncio. Nenhum dos dois lugares me deixa parada."

Essa dinâmica de vai e vem entre os dois hemisférios cria algo que dificilmente surgira num único contexto: uma voz artística genuinamente híbrida, que não pertence completamente a nenhum lugar e, por isso mesmo, consegue falar com muita gente.

Onde encontrar sua comunidade

Para quem quer seguir esse caminho, alguns pontos de partida concretos:

Em Tóquio:

Em Buenos Aires:

Criar longe para entender de perto

Há algo que Tóquio e Buenos Aires ensinam juntas que nenhuma das duas conseguiria sozinha: que identidade não é um ponto fixo, mas um processo. Artistas brasileiros que passam tempo nessas cidades voltam — quando voltam — com trabalhos que são inegavelmente brasileiros, mas atravessados por algo que só a distância e o estranhamento podem produzir.

A saudade, nesses casos, não é o oposto da criatividade. Ela é o combustível.

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